O Goldman Sachs restringiu o uso das ferramentas de inteligência artificial para programação Claude Code, da Anthropic, e GitHub Copilot, da Microsoft, a cerca de 12 mil engenheiros em todo o mundo. Com a nova diretriz, traders e banqueiros perderam o acesso direto a agentes que vinham sendo usados para monitorar fluxos de clientes e modelar mercados.
A regra interna, em vigor desde outubro, altera a rotina de parte dos aproximadamente 47 mil funcionários do banco. Até poucos meses atrás, o diretor de informação, Marco Argenti, defendia o conceito de “vibe coding”, no qual profissionais sem formação técnica criavam versões iniciais de ferramentas com IA e depois as encaminhavam aos engenheiros.
Agora, essa possibilidade está concentrada na equipe técnica. “Desenvolvedores, mais de 12 mil dos cerca de 47 mil funcionários do banco, compõem a primeira onda da adoção de IA”, afirmou Argenti recentemente, ao explicar a estratégia de incorporação da tecnologia.
Segundo pessoas familiarizadas com a operação, a decisão ocorreu após uma revisão de produtividade e riscos. Entre as preocupações estão a geração de códigos sem revisão especializada, o possível rompimento das chamadas “barreiras de informação” internas — que separam áreas com interesses conflitantes, como banco de investimento e trading — e a dificuldade de usuários não técnicos para explicar ou auditar seus próprios scripts em situações de estresse no mercado.
Um diagnóstico interno resumiu o risco da seguinte forma: “Um script que um trader cria para monitorar fluxos de clientes pode acabar em uso diário sem passar por revisões”.
Traders e banqueiros que utilizavam Claude Code e Copilot para criar painéis de fluxo de clientes, executar modelos rápidos de risco e produzir relatórios gráficos agora precisam solicitar formalmente o apoio das equipes de engenharia para desenvolver soluções automatizadas que envolvam código.
Na prática, as áreas de trading e banco de investimento perdem autonomia e velocidade para criar ferramentas sob medida e passam a depender de processos mais formais. Em contrapartida, o desenvolvimento e a execução de código automatizado ficam concentrados em um grupo menor e especializado, o que pode aumentar a segurança e a padronização.
O porta-voz do Goldman Sachs, Nick Carcaterra, afirmou que o banco disponibiliza determinadas ferramentas de IA às equipes “para determinar os melhores casos de uso” em toda a instituição. Dentro do banco, a interpretação é que a fase de experimentação ampla está sendo substituída por um modelo mais controlado, liderado por engenheiros.
A mudança começou meses antes da atualização de outubro. Em abril, o Goldman retirou o acesso ao Claude de sua plataforma interna de IA para banqueiros em Hong Kong, citando restrições contratuais e regulatórias locais. Na ocasião, outras ferramentas generativas, como ChatGPT e Gemini, continuaram liberadas na região. Em nota, a Anthropic afirmou que “Claude nunca foi oficialmente suportado em Hong Kong”.
Desde então, o banco passou a segmentar o uso de IA por localização e, mais recentemente, por função. A restrição atual não afeta o assistente interno de inteligência artificial do Goldman, que continua disponível para toda a companhia e utiliza modelos de diferentes fornecedores. O foco da medida são agentes de terceiros capazes de escrever e executar código automaticamente, como Claude Code e GitHub Copilot.
O custo também foi considerado na revisão. Segundo fontes internas, “o uso de agentes é cobrado por token, e o aumento do gasto foi parte da revisão de produtividade”. Empresas que liberaram agentes de programação para todos os funcionários registraram aumento das despesas com tarefas consideradas pouco relevantes, levando algumas delas a rever a política.
A restrição não representa um afastamento completo do ecossistema da Anthropic. O Goldman mantém agentes baseados em Claude em funções de back office, como contabilidade de operações e integração de clientes. Esses sistemas foram desenvolvidos com apoio de engenheiros da Anthropic ao longo de meses e atualmente são operados e supervisionados diretamente pela equipe de engenharia do banco.
Nesse modelo, o uso de IA fica concentrado em tarefas administrativas e de suporte, com maior controle sobre dados sensíveis e sobre a interação do código com sistemas críticos. A abordagem difere do cenário que vinha se formando nas mesas de operações, onde profissionais de mercado criavam seus próprios scripts de monitoramento a partir de comandos escritos para a IA.
Além da segurança, a capacidade de compreender o código também é uma preocupação. Um engenheiro de outra empresa de tecnologia afirmou recentemente: “Escrever software é meu trabalho, mas agora envio códigos que não consigo explicar totalmente”. A avaliação de risco no Goldman é que um trader sem formação técnica equivalente teria ainda mais dificuldade para confiar sua carteira a um modelo cujo funcionamento não domina.
A mudança ocorre em um momento sensível para o banco, que é um dos coordenadores líderes da oferta inicial de ações da Anthropic. A empresa registrou o formulário de abertura de capital em 26 de outubro e espera listar seus papéis na Nasdaq, sob o ticker ANT, antes do fim de novembro.
A situação cria um contraste dentro do Goldman: nas semanas seguintes, seus banqueiros deverão apresentar ao mercado as perspectivas de crescimento de uma empresa cuja principal ferramenta de programação eles próprios deixaram de usar diretamente no dia a dia.
O movimento não é isolado. Outros grandes bancos também vêm restringindo o acesso a agentes de programação. O Barclays, por exemplo, anunciou a intenção de ter metade de seus desenvolvedores utilizando Claude Code até o fim do ano e, posteriormente, incluiu desenvolvedores entre cerca de 5 mil postos de trabalho eliminados, utilizando as ferramentas também como parte de uma estratégia para reduzir a necessidade de mão de obra.
JPMorgan e Schwab, por sua vez, passaram a bloquear agentes externos de acessar diretamente contas de clientes. As medidas reforçam a avaliação de que a automação com IA no setor financeiro precisa seguir regras de segurança, segregação de informações e aprovação semelhantes às aplicadas a outros softwares.
No Goldman Sachs, a principal questão agora é como as áreas de mercado substituirão as soluções criadas durante a fase de “vibe coding”. A expectativa é que a engenharia absorva parte dessas demandas, submetendo-as a regras mais rígidas de revisão e compliance, enquanto a direção acompanha os efeitos da nova política sobre a produtividade e a inovação.
Fonte: Miraí Broadcast