Os investimentos da TSMC, da Samsung e da Micron na construção de fábricas de semicondutores nos Estados Unidos estão transformando economias locais, valorizando imóveis no Arizona e reforçando a estratégia americana de reduzir a dependência externa em uma área considerada essencial para a inteligência artificial.
A construção de grandes fábricas de chips avançados no norte de Phoenix, no Texas e em Nova York já altera o mercado imobiliário, a atividade industrial e o equilíbrio geopolítico. No norte de Phoenix, o canteiro de obras da TSMC, fabricante taiwanesa de alguns dos chips mais avançados do mundo, tornou-se um novo polo de interesse para investidores.
Corretores relatam forte procura de investidores asiáticos por terrenos próximos à futura fábrica. Uma das perguntas mais frequentes é a distância entre os imóveis e o campus da empresa. O terreno vizinho à obra valorizou 53% em seis anos, enquanto a taxa de vacância de galpões na região caiu de 16% para 8% em apenas um ano. Mais de US$ 500 milhões em capital estrangeiro foram direcionados à zona norte de Phoenix em busca de áreas próximas ao complexo industrial.
A movimentação está ligada a alguns dos maiores investimentos já anunciados para a indústria de semicondutores em território americano. A TSMC prevê investir US$ 265 bilhões nos Estados Unidos, o maior aporte estrangeiro da história do país. A sul-coreana Samsung está construindo no Texas um complexo de US$ 37 bilhões voltado à produção de chips de 2 nanômetros. Já a americana Micron anunciou investimentos de US$ 200 bilhões em novas fábricas, incluindo um megaprojeto em Nova York.
Os três projetos têm em comum a produção de chips destinados à crescente demanda provocada pela inteligência artificial, especialmente por empresas de data centers e de computação em nuvem.
O movimento representa uma mudança na economia dos Estados Unidos, historicamente concentrada em serviços e empresas digitais, mas que agora busca ampliar a produção física de componentes estratégicos. Embora tenha o tamanho aproximado de uma unha, o chip avançado é essencial para produtos e sistemas que vão de veículos elétricos a mísseis guiados.
Atualmente, grande parte da produção mundial de chips de ponta está concentrada em Taiwan, ilha localizada a pouco mais de 100 quilômetros da China continental. Pequim reivindica o território e possui capacidade militar para, em um cenário extremo, bloquear o estreito que conecta Taiwan ao restante do mundo. Para Washington, essa dependência representa um risco para o funcionamento de celulares, serviços de nuvem, sistemas de armas e da própria infraestrutura financeira.
Ao transferir parte da produção da TSMC e de outros fabricantes para o território americano, os Estados Unidos pretendem reduzir essa vulnerabilidade. A estratégia pode gerar empregos, arrecadação e desenvolvimento tecnológico, mas tem como principal objetivo ampliar o controle nacional sobre componentes considerados fundamentais para a economia e a segurança do país.
A política de fortalecimento da indústria de semicondutores atravessa governos de partidos rivais. Tarifas sobre chips produzidos no exterior foram mantidas e ampliadas ao longo de diferentes administrações, acompanhadas de incentivos bilionários para estimular a instalação de fábricas nos Estados Unidos. A lógica é encarecer a importação e favorecer a produção doméstica.
As novas fábricas, porém, são diferentes das linhas de montagem tradicionais. Altamente automatizadas, elas empregam relativamente poucas pessoas, embora ofereçam salários elevados. Segundo um analista de política industrial ouvido pela reportagem, o objetivo não é necessariamente recuperar empregos industriais em grande escala, mas garantir o controle da base física da economia da inteligência artificial, formada por chips, energia, data centers e redes elétricas.
Nesse modelo, quem controla essa infraestrutura pode influenciar preços e condições tecnológicas durante as próximas décadas. A expansão da inteligência artificial generativa também vem alterando o mercado de trabalho nos Estados Unidos, com maior pressão sobre ocupações administrativas e de qualificação intermediária.
Diferentemente de ondas anteriores de automação, mais concentradas em linhas de produção, a IA atual atinge principalmente atividades realizadas em escritórios. Um pesquisador do futuro do trabalho ouvido pela reportagem afirmou que a tecnologia mira especialmente profissionais de colarinho branco, com escolaridade e funções desempenhadas predominantemente diante de um computador.
Entre as ocupações mais expostas estão analistas juniores, programadores responsáveis por tarefas de execução, assistentes administrativos, contadores e atendentes de call center. Esses empregos foram, durante décadas, uma das principais portas de entrada para a classe média.
Atividades presenciais e manuais, como limpeza, cuidados pessoais, construção civil e atendimento direto ao público, tendem a ser menos afetadas no curto prazo. A tecnologia ainda não substitui tarefas como cortar cabelo, trocar fraldas ou erguer paredes em um canteiro de obras. Na outra ponta, profissionais responsáveis por decisões, criação e gestão de riscos podem usar a IA para ampliar a produtividade e, em alguns casos, aumentar seus rendimentos.
O resultado é o enfraquecimento da chamada “escada do meio”, situada entre empregos manuais de baixa remuneração e carreiras de alta formação e salários elevados. É justamente esse segmento intermediário que a automação baseada em inteligência artificial tende a pressionar com mais intensidade.
A resposta dos Estados Unidos a esse processo não se concentra apenas na preservação de cada emprego de escritório. O país também busca fortalecer a base industrial ligada à própria tecnologia, com fábricas de chips, infraestrutura energética e redes digitais capazes de gerar riqueza e novas cadeias de trabalho.
A aposta em semicondutores, data centers e redes pretende criar uma nova base econômica para uma classe média pressionada pela automação. Embora as fábricas empreguem diretamente poucas pessoas, elas atraem milhares de trabalhadores durante a construção, movimentam fornecedores, estimulam o comércio local e valorizam imóveis, como ocorre no norte de Phoenix.
Esse ciclo pode gerar lucros, exportações e arrecadação tributária. Esses recursos, segundo um economista especializado em inovação ouvido pela reportagem, podem financiar políticas sociais, programas de requalificação profissional e mecanismos de apoio a trabalhadores afetados pela automação.
A produção doméstica de semicondutores também busca reduzir a possibilidade de choques de oferta que poderiam acelerar demissões ou interromper setores inteiros da economia durante a transição para a Era da IA.
No campo geopolítico, cada chip produzido no Arizona, no Texas ou em Nova York reduz parte da dependência americana em relação a Taiwan e, consequentemente, diminui uma das possíveis fontes de pressão chinesa sobre os mercados globais. A disputa passa a envolver o domínio de etapas críticas da cadeia, desde o projeto dos chips até a capacidade de fabricá-los em escala, além do controle de insumos estratégicos, como energia e matérias-primas.
Washington também mantém seu compromisso militar e político com Taiwan por causa da posição estratégica da ilha nas rotas marítimas que concentram parcela significativa do comércio mundial. Mesmo com a ampliação da produção doméstica de chips, os Estados Unidos continuam considerando a região central para o equilíbrio de poder no Mar do Sul da China.
Para países que ainda não definiram políticas industriais voltadas à Era da IA, a transformação do norte de Phoenix funciona como um sinal de alerta. Enquanto parte do debate público permanece concentrada em temas sem conexão direta com essa disputa, Estados Unidos e outras potências já constroem, em aço e concreto, a infraestrutura econômica e tecnológica que poderá definir as próximas décadas.
Fonte: Miraí Broadcast