China reduz demanda por soja e amplia compras dos EUA, colocando exportações brasileiras em alerta

A China iniciou um movimento de redução gradual da dependência de importações de soja, ao mesmo tempo em que retoma compras significativas dos Estados Unidos. A mudança cria um cenário de risco para o Brasil, atualmente o principal fornecedor do grão ao mercado chinês e altamente dependente desse fluxo para gerar renda, empregos e saldo comercial.

No centro da estratégia está o compromisso chinês de adquirir 25 milhões de toneladas de soja norte-americana por ano entre 2026 e 2028, além de pelo menos US$ 17 bilhões anuais em outros produtos agrícolas dos Estados Unidos. O volume devolve aos produtores norte-americanos um peso relevante na disputa pelo mercado chinês, justamente em um momento no qual Pequim sinaliza que deverá precisar de menos soja no médio prazo.

O possível impacto para o Brasil é direto. Somente em 2026, o país exportou quase 64 milhões de toneladas de soja para a China, movimento que contribuiu para sustentar o Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário e o superávit comercial brasileiro. Parte desse espaço pode ser ocupada pelo produto norte-americano, ao menos enquanto o acordo bilateral estiver em vigor.

A concorrência aumenta apesar de uma diferença importante nas tarifas. A soja dos Estados Unidos entra na China com imposto de 13%, enquanto a brasileira paga 3%. Essa assimetria ainda oferece vantagem de preço ao Brasil, mas pode não ser suficiente para afastar a pressão competitiva norte-americana diante de um compromisso formal de compra.

A reaproximação entre Pequim e Washington ocorre após anos de guerra comercial, período em que as exportações de soja dos Estados Unidos para a China caíram 50% e os preços internacionais do grão recuaram 40%. Com a redução parcial de tarifas sobre diversos produtos e o novo pacote de compras agrícolas, os chineses recompõem parte desse canal de abastecimento, sem abandonar a soja brasileira.

Apesar do novo impulso às vendas norte-americanas, a tarifa de 13% aplicada à soja dos Estados Unidos foi mantida e não fez parte do pacote de cortes recentes negociado entre os dois países. Para a especialista em China Larissa Wachholz, essa decisão representa uma sinalização calculada de Pequim. “Manter essa tarifa acaba também sendo uma sinalização de cautela, de que a relação está estável, mas que ela não está totalmente normalizada”, afirma.

No caso brasileiro, a tributação menor continua sendo uma vantagem. “Essa diferença de 10 pontos percentuais ajuda a preservar a competitividade brasileira, pelo menos no curto prazo, mesmo com a aproximação bilateral”, diz Patrícia Ellen, líder global de Natureza e Sistemas Alimentares da consultoria Systemiq.

O movimento chinês, contudo, vai além da disputa comercial com os Estados Unidos. O atual Plano Quinquenal de Pequim estabelece como prioridade a redução da dependência de produtos importados, entre eles a soja. O governo investe no aumento da produção doméstica e pretende diminuir o uso de farelo de soja na alimentação animal, um dos principais destinos do grão.

Relatório da Systemiq projeta que, somando ganhos de produtividade interna, mudanças na formulação de rações e tendências demográficas — incluindo uma população que deve encolher e envelhecer —, as importações chinesas de soja podem cair até 25% até 2030. Em números absolutos, a redução representaria dezenas de milhões de toneladas a menos demandadas no mercado internacional.

Segundo o estudo, apenas a queda projetada no consumo de farelo de soja, que deve passar de cerca de 14,5% para menos de 10% da composição das rações até 2030, já reduziria de forma relevante a necessidade de compras externas. Paralelamente, a China continua elevando a produtividade de suas lavouras, apoiada por políticas públicas específicas e pelo uso de tecnologia.

Como maior fornecedor da China, o Brasil é o país mais exposto a esse ajuste estrutural. Atualmente, uma parcela significativa da renda dos produtores rurais, da valorização das terras agrícolas, dos empregos em regiões do interior e da atividade de tradings, armazéns, indústrias esmagadoras e terminais portuários está ligada à soja destinada ao mercado chinês.

A Systemiq alerta que uma contração de até 25% na demanda chinesa pode reduzir simultaneamente os preços e os volumes exportados, provocando efeitos em cadeia sobre toda a economia do agronegócio. Em um cenário desse tipo, margens menores podem levar produtores a cortar investimentos, reduzir contratações e desacelerar a abertura de novas áreas de cultivo e a expansão da infraestrutura.

Especialistas também lembram que a cadeia brasileira foi estruturada para atender um mercado chinês em expansão contínua. Caso a China, além de comprar menos, amplie as aquisições dos Estados Unidos para além das 25 milhões de toneladas previstas no acordo atual, o impacto sobre o Brasil tende a ser maior.

Diante do novo cenário, analistas recomendam cautela aos produtores brasileiros, em vez de uma resposta baseada exclusivamente no aumento da área plantada. A orientação é evitar uma expansão desconectada das perspectivas de demanda e priorizar ganhos de eficiência e agregação de valor.

Uma das alternativas é ampliar o processamento da soja dentro do próprio país, transformando o grão em farelo, óleo, proteína vegetal e insumos para biocombustíveis, em vez de exportá-lo apenas in natura. Com isso, o Brasil pode reduzir a dependência de um único comprador e obter margens maiores ao longo da cadeia produtiva.

Outra frente é a diversificação geográfica das exportações. A Índia é frequentemente citada como um mercado com potencial para absorver parte do excedente, especialmente diante do crescimento populacional e da elevação da renda. Países do Sudeste Asiático, do Oriente Médio e até o mercado interno de biocombustíveis também estão no radar.

Para Patrícia Ellen, o desafio é estratégico, e não apenas uma reação pontual. A especialista defende que o Brasil aproveite o período em que ainda possui vantagem tarifária na China para investir em tecnologia, sustentabilidade e inovação em biocombustíveis, criando novas fontes de demanda capazes de reduzir os efeitos de eventuais oscilações do mercado chinês nos próximos anos.

Fonte: Miraí Broadcast