Uma onda de vendas concentrada em ações ligadas à inteligência artificial derrubou os principais índices de Wall Street, eliminou US$ 1,036 trilhão em valor de mercado das sete maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos e atingiu bolsas asiáticas, incluindo a da Coreia do Sul, que acionou o mecanismo de segurança conhecido como circuit breaker. O movimento ocorreu em um dos pregões mais turbulentos do ano para o setor.
Nas sessões de quinta e sexta-feira, Nasdaq, S&P 500 e Dow Jones registraram fortes quedas. A pressão também se espalhou pelos mercados da Ásia e chegou ao Brasil, em meio à desconfiança dos investidores sobre o ritmo dos gastos bilionários em inteligência artificial e ao temor de novas regras para centros de dados após a vitória democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
A expansão dos investimentos em infraestrutura de IA, sem uma visibilidade clara sobre o retorno, levou investidores a revisar suas expectativas e a realizar lucros no setor de tecnologia. Grandes empresas vêm comprometendo centenas de bilhões de dólares com data centers, compra de chips e ampliação de serviços de nuvem e plataformas de IA generativa. Esses gastos pressionam o fluxo de caixa e as margens no curto prazo, enquanto parte do mercado passou a identificar um possível desequilíbrio entre o entusiasmo com a tecnologia e sua capacidade de gerar lucros em um horizonte próximo.
O resultado eleitoral nos Estados Unidos acrescentou um fator de risco. Com a vitória democrata nas eleições de meio de mandato, aumentou a preocupação de que governos estaduais e o Congresso endureçam as regras para a construção de centros de dados, estruturas que consomem grandes volumes de energia e água e já enfrentam resistência de comunidades locais. Exigências ambientais, tributárias ou de licenciamento poderiam atrasar projetos e elevar os custos da infraestrutura necessária para a expansão da IA.
Esse cenário afetou as projeções que sustentavam a valorização recente das ações, desencadeou ordens de venda em cadeia e atingiu principalmente empresas expostas à corrida por chips avançados e supercomputação. Essas tecnologias estão na base de grande parte das atuais apostas em inteligência artificial.
Na quinta-feira, o Nasdaq recuou 5,52%, o S&P 500 caiu 4,36% e o Dow Jones perdeu 3,44%. Entre as empresas de maior peso nesses índices, Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla — conhecidas como Magnificent Seven — concentraram parte relevante das perdas. Os investidores passaram a questionar se o volume de capital destinado à IA não teria ultrapassado o nível considerado sustentável.
As sete companhias perderam, juntas, US$ 1,036 trilhão em valor de mercado em apenas um pregão, montante superior ao valor de todas as empresas listadas na B3. Segundo a consultoria Elos Ayta, a perda correspondeu a 1,21 vez o valor de todas as companhias negociadas no Brasil.
A Nvidia, fabricante dos chips mais demandados para o treinamento de modelos de IA e um dos principais símbolos da euforia em torno da tecnologia, liderou as perdas. A empresa teve US$ 446 bilhões eliminados de seu valor de mercado, cifra equivalente a quase quatro vezes o valor de mercado da Petrobras.
Também registraram perdas expressivas no mesmo dia a Tesla, com redução de US$ 164 bilhões; a Broadcom, com US$ 162 bilhões; a Micron Technology, com US$ 157 bilhões; a Microsoft, com US$ 147 bilhões; e a AMD, com US$ 139 bilhões. As ações da Nvidia e da AMD recuaram 9,3% e 17,3%, respectivamente, enquanto o índice de semicondutores da Filadélfia caiu 12,2%.
A queda ocorreu após meses de valorização das empresas de tecnologia, impulsionada pela expectativa de que a IA generativa abriria novas fontes de receita e elevaria a produtividade em diferentes setores. Balanços recentes, porém, indicaram que os investimentos crescem mais rapidamente do que o caixa gerado por muitos desses projetos.
Governos e órgãos reguladores também ampliaram o escrutínio sobre o consumo de energia, a concentração de dados e o poder de mercado das grandes plataformas digitais. A combinação de custos elevados, incerteza regulatória e bolsas negociadas perto de níveis recordes criou condições para uma correção mais intensa diante de um gatilho. Nesse caso, o resultado das eleições americanas e a percepção de que o setor estava sendo negociado com um prêmio elevado contribuíram para acelerar o movimento.
O impacto não se restringiu às sete gigantes. As empresas que compõem o S&P 500 perderam, ao todo, US$ 3,317 trilhões em valor de mercado na quinta-feira, quase quatro vezes o valor estimado de todas as companhias listadas na B3, calculado em US$ 857 bilhões.
A comparação dimensiona o efeito da correção sobre o mercado brasileiro: em um único dia, a perda das Magnificent Seven superou em 21% o valor de todas as empresas negociadas na bolsa de São Paulo. Para investidores brasileiros expostos a fundos internacionais de tecnologia, o impacto foi direto, embora ainda possa ser totalmente refletido nas cotas desses produtos.
O setor de semicondutores esteve no centro da turbulência. Além de Nvidia e AMD, empresas como Broadcom e Micron Technology registraram quedas acentuadas, acompanhadas por recuos de companhias que fornecem equipamentos e infraestrutura para as cadeias relacionadas à inteligência artificial.
A queda em Wall Street atravessou o Pacífico e atingiu os mercados asiáticos na manhã de sexta-feira. O Nikkei, principal índice da bolsa de Tóquio, recuou 5,96%. Em Seul, o Kospi caiu 6,02% no fechamento, depois de chegar a desabar 8,55% durante o pregão, nível que acionou o mecanismo de segurança da bolsa sul-coreana.
O circuit breaker é acionado quando o mercado registra uma queda considerada muito acentuada e tem como objetivo interromper temporariamente as operações. A suspensão começou no início da sessão, durou 20 minutos e buscou conter a pressão vendedora depois que o Kospi caiu abaixo dos 5 mil pontos.
A turbulência refletiu o peso das fabricantes de chips na região. As ações da SK Hynix, grande produtora de memórias utilizadas em aplicações de IA, recuaram 10,4%. Os papéis da Samsung Electronics caíram 6,4%. No Japão, a SoftBank, que tem forte exposição a empresas globais de tecnologia, perdeu cerca de 11%.
Em Taiwan, o Taiex caiu 4,51%, enquanto a TSMC, uma das maiores fabricantes de semicondutores do mundo, recuou 4,7%. Em Cingapura, o índice Straits Times perdeu 2,17%. Outros indicadores da região também fecharam em baixa, reforçando a percepção de que a revisão das expectativas sobre a IA não estava limitada aos Estados Unidos.
No Brasil, a correção global tende a elevar a aversão ao risco e a pressionar ativos ligados à tecnologia e empresas exportadoras de componentes eletrônicos. A diferença entre as perdas das Magnificent Seven e o valor total da B3 também deve ampliar as discussões sobre a concentração de risco em poucas ações globais que vinham influenciando o comportamento dos mercados.
Analistas avaliam que, no curto prazo, empresas intensivas em capital para desenvolver IA podem revisar cronogramas de investimentos e sua comunicação com o mercado, priorizando rentabilidade e geração de caixa. Setores menos expostos à corrida tecnológica podem receber parte dos recursos realocados até que os investidores identifiquem um equilíbrio mais claro entre os custos e os retornos da inteligência artificial.
No campo regulatório, a expectativa é de debates mais intensos nos Estados Unidos sobre infraestrutura de dados, consumo de energia e incentivos a novos projetos. Mesmo sem alterações imediatas na legislação federal, decisões estaduais sobre licenciamento e fornecimento de energia para data centers já são consideradas potenciais pontos de tensão para a expansão da IA nos próximos meses.
Fonte: Miraí Broadcast