Wall Street perde US$ 3,2 trilhões e vê aposta na inteligência artificial entrar em zona de incerteza

A aposta de Wall Street na inteligência artificial sofreu um forte revés nesta semana, com uma perda de US$ 3,2 trilhões em valor de mercado. O Nasdaq 100 recuou 4,9% no período, após cair mais de 6% na quinta-feira (5) e registrar uma recuperação parcial de 1,4% na sexta-feira (6). As fabricantes de chips lideraram as perdas, em meio a novas incertezas políticas, regulatórias e econômicas nos Estados Unidos.

O movimento ocorreu após as eleições de meio de mandato no país reacenderem preocupações sobre o futuro dos investimentos em IA. O mercado passou a considerar menos provável a manutenção de um ambiente de livre expansão para o setor, diante da possibilidade de regras mais rígidas, custos elevados de energia e financiamento mais caro.

A chamada onda azul levou governadores democratas a estados estratégicos para a indústria de tecnologia, como o Texas. Investidores passaram a esperar mais barreiras à construção de data centers e maior rigor sobre os impactos da inteligência artificial no consumo de energia, no uso da água, na utilização de dados e no mercado de trabalho.

As eleições também enfraqueceram a percepção de que o setor teria um cheque em branco para crescer. Para Ludovic Subran, diretor de investimentos da Allianz, o mercado percebeu que considerar que o céu é o limite não é uma metodologia adequada para avaliar empresas.

Fundos de hedge começaram a desmontar posições alavancadas em ações de tecnologia e fabricantes de chips, enquanto investidores pessoa física aceleraram as vendas. Nas duas primeiras horas do pregão de quinta-feira, as saídas líquidas desse grupo somaram US$ 388 milhões em ações individuais, no maior movimento de venda desde a pandemia. A pressão contribuiu para aprofundar a correção dos preços.

Um executivo do setor de ações comparou a dinâmica a uma reação química, na qual diferentes elementos se combinam até provocar uma explosão. Segundo ele, a eleição foi o fator que desencadeou o movimento.

A perda de US$ 3,2 trilhões ficou concentrada principalmente em empresas de tecnologia e semicondutores listadas no Nasdaq 100. Na quinta-feira, o índice, fortemente exposto às grandes companhias do setor, registrou uma das piores sessões já observadas para fabricantes de chips. A alta de 1,4% na sexta-feira não foi suficiente para impedir a queda semanal de 4,9%.

Por trás dos números, ocorreu um ajuste brusco de risco. Fundos de hedge reduziram a exposição bruta e encerraram apostas alavancadas em empresas ligadas à inteligência artificial. Esse tipo de movimento, comum em períodos de estresse, ampliou a queda das ações. Operadores relataram um pregão marcado pelo receio e pela necessidade de levantar recursos após perdas concentradas na tese de crescimento da IA.

Os títulos de dívida de empresas mais arriscadas do ecossistema também foram afetados. Entre elas estão as chamadas neoclouds, companhias que dependem fortemente da expansão dos data centers. A piora reforçou o temor de um ajuste no mercado de crédito.

Stephen Jones, gestor da Aegon Asset Management, afirmou que a execução do investimento de capital pode se tornar mais difícil diante de atrasos e restrições. Ele se referiu ao pacote estimado em US$ 1 trilhão de investimentos em inteligência artificial previsto para o próximo ano.

As fabricantes de semicondutores ficaram no centro da turbulência por representarem a ligação mais direta entre o entusiasmo com a IA e a economia real. O aumento recente dos lucros e das projeções do setor vinha sendo sustentado por encomendas bilionárias de chips destinados ao treinamento de modelos de inteligência artificial, ao abastecimento de supercomputadores e à expansão de data centers.

Com a possibilidade de restrições à construção dessas estruturas e o custo do dinheiro mais elevado, investidores passaram a questionar se a demanda projetada para os próximos anos será concretizada no ritmo esperado. O que antes parecia um ciclo contínuo de crescimento passou a ser visto como uma trajetória sujeita a atrasos, licenças mais difíceis e custos maiores de energia e financiamento.

A temporada de balanços do terceiro trimestre já havia indicado sinais de desconforto. Grandes empresas de tecnologia anunciaram planos agressivos de investimento em infraestrutura de IA, mas apresentaram receitas mais fracas em negócios principais, como publicidade digital, venda de dispositivos e serviços de nuvem mais maduros. Após o impacto político desta semana, esses sinais contribuíram para uma correção generalizada.

A semana começou com forte otimismo em Nova York. Na quarta-feira (4), após a confirmação dos resultados das eleições legislativas e para governos estaduais, as ações de tecnologia subiram, impulsionadas pela queda do petróleo e pela avaliação de que um possível arrefecimento da guerra no Oriente Médio poderia aliviar as pressões sobre os custos.

Uma grande instituição financeira chegou a afirmar, em nota a clientes, que os riscos relacionados ao Irã e ao financiamento da IA provavelmente continuariam presentes, mas que os investidores já haviam reduzido suficientemente a exposição ao risco para permitir uma alta das ações. Esse ambiente, porém, durou pouco.

Na quinta-feira, o petróleo voltou a subir, reacendendo preocupações com a inflação e com a manutenção de juros elevados por mais tempo. O foco dos investidores também se voltou para os efeitos concretos da nova composição política sobre a agenda de inteligência artificial.

Governadores democratas eleitos em estados que concentram grandes projetos de data centers sinalizaram uma postura mais rigorosa nas áreas ambiental e regulatória. A expectativa é que isso possa desacelerar o fluxo de investimentos de até US$ 1 trilhão projetado para o setor.

Para Nikhil Srinivasan, da gestora Benzaiten Macro, o cenário representa um freio na narrativa que vinha sustentando o mercado. Segundo ele, a tese de investimento em IA perdeu valor porque as ações refletem expectativas futuras, e o horizonte além dos próximos anos se tornou incerto. Na avaliação do gestor, o crescimento da economia americana já começa a ser revisado para baixo diante da provável desaceleração desses investimentos.

A turbulência expôs a fragilidade de um rali impulsionado por um número limitado de empresas e por uma única narrativa: a de que a inteligência artificial sustentaria simultaneamente o crescimento dos lucros das companhias de tecnologia e uma nova fase de expansão da economia dos Estados Unidos.

Agora, os investidores enfrentam um cenário de dupla revisão. De um lado, há perspectivas de receitas e margens mais pressionadas para empresas ligadas à IA e à infraestrutura digital. De outro, cresce a necessidade de recalcular a contribuição da tecnologia para o crescimento do Produto Interno Bruto, em um contexto de petróleo mais caro e juros elevados.

No curto prazo, a avaliação predominante é de que a volatilidade deve continuar, com novos ajustes em posições alavancadas e possível aperto nas condições de crédito para empresas mais dependentes do ciclo da inteligência artificial, especialmente as menores e mais endividadas. No médio prazo, gestores podem buscar setores considerados defensivos e companhias menos expostas à combinação de regulação, energia cara e capital restrito.

Entre os gestores, não há consenso sobre a intensidade do ajuste. Parte do mercado considera que o choque político foi superdimensionado e que os projetos já em andamento podem evitar uma ruptura brusca no curto prazo. Outros interpretam a correção como um possível sinal de encerramento do ciclo de alta.

Srinivasan afirmou acreditar que o mercado ainda pode cair, mesmo que registre altas pontuais nesta semana ou na próxima. O entendimento predominante é que a trajetória da inteligência artificial continua em construção, mas os preços em Wall Street passaram a refletir uma mensagem mais clara: a nova fronteira tecnológica também enfrenta limites.

Fonte: Miraí Broadcast