Voto local nos EUA freia data centers de IA e coloca expansão bilionária das big techs em xeque

Decisões tomadas por eleitores em comunidades dos Estados Unidos estão impondo novos obstáculos à expansão de data centers voltados à inteligência artificial e já afetam os planos de investimento de empresas como OpenAI, Google e Microsoft. O impacto é especialmente relevante no Texas, um dos principais polos da infraestrutura digital do país.

Nas eleições legislativas realizadas na terça-feira, dia 3, 40 das 41 votações locais relacionadas a data centers resultaram em medidas contrárias à expansão. Foram aprovadas 27 propostas que restringem a instalação ou ampliação dessas estruturas, enquanto 13 iniciativas destinadas a facilitar novos empreendimentos foram rejeitadas.

A resistência está relacionada principalmente ao elevado consumo de eletricidade e água dos data centers e ao receio de que os custos sejam repassados às tarifas pagas por moradores e empresas. Em diversas cidades, campanhas locais destacaram possíveis impactos sobre o preço da energia e a disponibilidade de recursos hídricos.

O resultado aumenta a pressão sobre empresas que vinham tratando a expansão dos data centers como uma questão predominantemente técnica e financeira. A partir de agora, novos projetos também dependerão da aprovação de comunidades que demonstram disposição para barrar empreendimentos considerados onerosos do ponto de vista ambiental e social.

O Texas, um dos principais destinos da corrida por infraestrutura digital, tornou-se símbolo dessa disputa. A governadora eleita Gina Hinojosa defendeu a suspensão de novas autorizações até que sejam estabelecidas regras mais rígidas para os empreendimentos, segundo sua equipe.

Estimativas de analistas indicam que os estados onde o resultado eleitoral pode resultar em novas restrições concentram aproximadamente 45% da expansão planejada da capacidade de data centers dos Estados Unidos. O Texas responde por cerca de um quarto desse total, o que o coloca no centro das decisões estratégicas das grandes empresas de tecnologia.

Uma suspensão temporária de licenças no estado, combinada com normas ambientais e energéticas mais rigorosas, pode atrasar cronogramas, elevar custos de construção e operação e obrigar as empresas a replanejar cadeias de fornecimento de energia e conectividade.

Serviços de inteligência artificial generativa, como chatbots e sistemas de análise de dados em larga escala, dependem de data centers de grande porte, equipados com milhares de chips de alto desempenho. Essas instalações consomem grandes volumes de eletricidade e água, utilizada principalmente nos sistemas de resfriamento.

Em regiões onde a rede elétrica opera próxima do limite ou depende de fontes fósseis, moradores temem impactos sobre as tarifas e o meio ambiente. Em áreas sujeitas a secas, o consumo de água pelos data centers também provoca preocupações relacionadas ao abastecimento da população e à produção agrícola.

Até poucos meses atrás, o debate público sobre inteligência artificial era dominado pelas expectativas de ganhos de produtividade e inovação. As votações recentes indicam que uma parcela crescente da população passou a confrontar essas promessas com questões locais, como o preço da energia e o uso de recursos naturais.

O novo ambiente político também repercutiu no mercado financeiro. A OpenAI, proprietária do ChatGPT, anunciou ter levantado 11 bilhões de dólares na primeira etapa de uma rodada de investimentos que inicialmente pretendia captar pelo menos 30 bilhões de dólares. A meta foi reduzida para até 20 bilhões de dólares, enquanto a avaliação prevista da empresa caiu de 1,4 trilhão para 1,25 trilhão de dólares.

A mudança na percepção dos investidores começou antes das votações, em meio a questionamentos sobre a rentabilidade de projetos de inteligência artificial que exigem investimentos cada vez maiores em infraestrutura. O resultado eleitoral acrescentou uma nova camada de risco, já que a disponibilidade de capital não garante a construção de data centers caso comunidades e governos locais rejeitem os projetos.

Analistas avaliam que a combinação de incerteza regulatória, aumento dos custos de energia e pressão ambiental é difícil de precificar. Possíveis atrasos, exigências adicionais de mitigação e até cancelamentos de obras passaram a ser considerados nos cálculos de retorno dos fundos que financiam a expansão do setor.

A OpenAI afirma, contudo, que o processo de captação ainda não foi concluído. Executivos próximos às negociações destacam que os 11 bilhões de dólares correspondem apenas à primeira parcela da rodada, em uma tentativa de afastar a interpretação de que a empresa teria reduzido seu interesse por novos recursos.

Na quinta-feira, dia 5, dois dias após as eleições, a OpenAI anunciou um pacote de compromissos para melhorar sua relação com as comunidades que receberão novos data centers. As medidas incluem maior transparência sobre os impactos ambientais e econômicos das instalações e o fim da exigência de acordos de confidencialidade com autoridades públicas, exceto em casos envolvendo informações estritamente comerciais ou de segurança.

A iniciativa indica que a empresa reconhece a necessidade de atuar também no campo político e comunitário, além da área tecnológica. A estratégia busca reduzir a resistência em cidades e condados onde os projetos enfrentam audiências públicas com grande participação e conselhos locais mais céticos.

A diretora financeira da OpenAI, Sarah Friar, afirmou recentemente que os planos de expansão continuam e contestou a interpretação de que a empresa tenha reduzido suas ambições de financiamento. O posicionamento indica continuidade dos projetos, mas o esforço para conquistar moradores e lideranças locais revela uma preocupação que, até pouco tempo atrás, aparecia com menos frequência nas apresentações aos investidores.

No curto prazo, o resultado eleitoral pode reduzir a velocidade e a escala da construção de novos data centers, principalmente nos estados que concentram quase metade da expansão planejada. Os obstáculos locais podem adiar cronogramas, exigir projetos mais eficientes no uso de energia e água e levar as empresas a buscar regiões com regras mais previsíveis.

A médio prazo, especialistas avaliam que o setor deverá ampliar o diálogo com comunidades, investir em fontes renováveis e adotar tecnologias de resfriamento que consumam menos água. Com o aumento do poder de negociação de eleitores e governos locais, a expansão da infraestrutura de inteligência artificial passa a depender de um equilíbrio mais complexo entre avanço tecnológico, sustentabilidade ambiental e aceitação social.

Fonte: Miraí Broadcast