Brasil lança instituto internacional de IA para enfrentar desafios climáticos e ampliar autonomia tecnológica

O Brasil lança, em 16 de novembro, durante a COP31, em Antalya, na Turquia, o Instituto Internacional de Inteligência Artificial para o Clima (AICI). Com sede em Brasília, a iniciativa será uma rede global de capacitação e cooperação técnica voltada principalmente a países em desenvolvimento, com o objetivo de ampliar o uso de inteligência artificial no enfrentamento das mudanças climáticas e reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras.

Proposto pelo governo brasileiro, o AICI será criado em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e a União Internacional de Telecomunicações (UIT), ambas vinculadas à Organização das Nações Unidas (ONU). A secretaria do instituto ficará em Brasília, ligada ao Green Digital Action Hub e sob responsabilidade institucional da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que oferecerá suporte operacional e contribuirá para a articulação de ações relacionadas à regulação e à infraestrutura digital.

Segundo a Unesco, o instituto funcionará como uma rede internacional de capacitação e cooperação técnica, conectando governos, pesquisadores, universidades e profissionais de tecnologia. O foco inicial será atender países com menor infraestrutura tecnológica e oferta limitada de formação especializada, especialmente na América Latina e no Sudeste Asiático.

A proposta foi apresentada pelo Brasil em negociações climáticas anteriores e ganhou forma após ações preparatórias realizadas em cidades amazônicas. O lançamento em Antalya consolida a participação brasileira na articulação de uma agenda que relaciona clima, tecnologia e desenvolvimento.

O instituto atuará em duas principais frentes de capacitação. A primeira será destinada a gestores públicos e abordará temas como governança de dados, formulação de políticas climáticas, desenvolvimento de sistemas de monitoramento e uso responsável de algoritmos em políticas ambientais. A segunda será voltada a desenvolvedores de software e cientistas de dados, com atividades práticas de programação, construção e ajuste de modelos de inteligência artificial aplicados ao clima.

Entre as aplicações previstas estão o monitoramento do desmatamento, a gestão de recursos hídricos, a previsão de eventos climáticos extremos e a prevenção de desastres naturais. Um dos projetos-piloto apresentados na COP31 utilizará inteligência artificial para apoiar ações de prevenção ao desmatamento na Amazônia.

Para reduzir as barreiras de entrada, o AICI também criará uma biblioteca digital de acesso aberto, com bases de dados ambientais, modelos de inteligência artificial prontos para adaptação e guias técnicos desenvolvidos para funcionar em regiões com internet instável e infraestrutura limitada.

De acordo com a Unesco, a iniciativa pretende oferecer aos países em desenvolvimento condições técnicas e institucionais para que criem suas próprias soluções de inteligência artificial, sem depender exclusivamente de sistemas desenvolvidos e controlados por empresas estrangeiras. A avaliação da organização é que o desenvolvimento de competências locais pode ampliar a autonomia de governos e instituições na criação de ferramentas adaptadas às suas realidades climáticas e sociais.

Antes do lançamento oficial, o instituto testou sua metodologia em um workshop piloto realizado em outubro de 2025, em cidades amazônicas como Manaus e Belém. O treinamento reuniu 25 participantes de oito países da região, com palestras de especialistas, estudos de caso e exercícios práticos.

A atividade foi utilizada para ajustar os conteúdos, identificar dificuldades comuns — como a falta de dados padronizados e a carência de infraestrutura computacional — e mapear áreas em que a cooperação regional em inteligência artificial aplicada ao clima é mais urgente.

A criação do AICI ocorre em meio a uma dupla pressão sobre os países em desenvolvimento. Essas nações são fortemente afetadas pela crise climática, com enchentes, secas, ondas de calor e aumento de desastres, mas também dependem, em grande medida, de tecnologias e sistemas digitais desenvolvidos em poucos centros de poder econômico.

Ao investir em formação e infraestrutura aberta, o instituto pretende fortalecer capacidades locais e criar redes de troca entre universidades, órgãos públicos e centros de pesquisa. A participação da Unesco e da UIT poderá permitir o uso de estruturas já existentes, como programas educacionais, redes científicas, geoparques e reservas da biosfera, para ampliar o alcance das ações.

Os organizadores trabalham na mobilização de recursos financeiros por meio de parcerias, redes de pesquisa e possíveis financiadores internacionais. O objetivo é viabilizar o plano de trabalho previsto inicialmente para 2026 e 2027. A abrangência geográfica e o número de países atendidos dependerão da disponibilidade orçamentária.

Além das aplicações climáticas diretas, o AICI pretende enfrentar um problema relacionado à própria tecnologia que promove: o impacto ambiental da inteligência artificial. A expansão de modelos cada vez maiores aumenta o consumo de energia e água, além da pegada de carbono associada aos centros de dados e ao processamento de informações.

Por esse motivo, o instituto adotará como referência o conceito de IA Verde, que busca reduzir o consumo de recursos naturais em toda a cadeia tecnológica. Um estudo da Unesco em parceria com a University College London (UCL) apontou que o uso de modelos menores, especializados em tarefas específicas, e de instruções otimizadas pode reduzir o consumo de energia em até 90% em determinadas condições.

O resultado não representa uma meta numérica do AICI, mas servirá como base científica para orientar as boas práticas disseminadas na rede de parceiros. A expectativa é estimular desenvolvedores e gestores públicos a optarem por arquiteturas mais enxutas, códigos mais eficientes e estratégias de uso que demandem menos energia.

Com a secretaria instalada em Brasília, o Brasil reforça sua participação em fóruns internacionais dedicados à discussão sobre clima e tecnologia. O Green Digital Action Hub, ao qual o instituto ficará vinculado, foi criado para aproximar o setor digital das metas climáticas globais e passará a contar com uma estrutura dedicada à inteligência artificial.

Na prática, a iniciativa poderá influenciar a forma como governos de países em desenvolvimento formulam e executam políticas climáticas baseadas em dados. A formação de quadros técnicos locais pode reduzir custos com a contratação de soluções prontas no exterior, ampliar a transparência sobre o funcionamento dos modelos de inteligência artificial usados em políticas públicas e favorecer ferramentas adaptadas a realidades específicas, como florestas tropicais, megacidades costeiras e regiões semiáridas.

Para a Unesco e a UIT, o instituto representa uma oportunidade de ampliar programas de cooperação técnica já existentes, conectando ações de inclusão digital, infraestrutura de telecomunicações e enfrentamento das mudanças climáticas. Durante a COP31, as instituições deverão detalhar o plano de trabalho inicial, as áreas prioritárias e as formas de participação de governos, universidades, centros de pesquisa e eventuais financiadores privados interessados em apoiar a iniciativa.

Fonte: Miraí Broadcast