Nenhum dos 135 artigos científicos escritos por agentes de IA passou no teste completo de rigor

Um benchmark criado por pesquisadores da Carnegie Mellon University em parceria com laboratórios nacionais do Departamento de Energia dos Estados Unidos revelou limitações significativas de nove agentes de inteligência artificial na produção autônoma de artigos científicos. Batizado de “Into the Unknown”, o estudo avaliou 135 trabalhos e concluiu que nenhum cumpriu todos os critérios mínimos definidos por especialistas humanos.

O teste analisou a capacidade dos agentes de conduzir pesquisas de seguimento em áreas como computação quântica, física de plasma, química, ciência dos materiais e aprendizado de máquina científico. Para isso, cada sistema recebeu um artigo real, seu código, os dados correspondentes e uma direção de pesquisa ainda não explorada, formulada pelos autores do estudo original. A partir dessas informações, os agentes deveriam realizar uma nova investigação e produzir um artigo científico.

Ao todo, foram propostas 15 tarefas de pesquisa, que resultaram em 135 submissões elaboradas por nove modelos: Claude Opus 4.8, Claude Opus 5, Claude Fable 5, Claude Opus 5.5, GPT-5.6 Sol, GPT-6 Astra, Deepseek V4 Pro, Kimi K3 e GLM-5.3. Os agentes tiveram acesso a máquinas potentes, conexão à internet, tempo ilimitado e até cinco tentativas para aperfeiçoar os trabalhos.

A avaliação considerou três critérios: integridade, que verifica a ausência de informações falsas ou contraditórias; completude, relacionada à inclusão de todos os documentos e planos experimentais exigidos; e qualidade científica, medida por um sistema automatizado baseado no modelo GPT-6 Astra. Cada artigo foi avaliado quatro vezes, totalizando quase 2 mil horas de processamento.

Dos 135 artigos analisados, 114 falharam no critério de integridade. Foram encontradas divergências entre texto e código, números incompatíveis com os registros e alegações de experimentos que não haviam sido realizados. Segundo os pesquisadores, os agentes produziram textos semelhantes a artigos de seguimento, mas não alcançaram o nível de integridade e completude esperado por especialistas.

Apenas três agentes apresentaram algumas submissões sem violações de integridade: GPT-6 Astra, GPT-5.6 Sol e Claude Opus 5.5. O GPT-6 Astra teve o melhor desempenho, com 11 das 15 tarefas sem falhas de integridade. O GPT-5.6 Sol alcançou esse resultado em seis tarefas, enquanto o Claude Opus 5.5 conseguiu fazê-lo em quatro.

As submissões dos outros seis agentes, incluindo os modelos abertos Deepseek V4 Pro, Kimi K3 e GLM-5.3, apresentaram algum tipo de violação. Entre os problemas identificados estavam valores de referência reportados de forma incorreta e resultados “hardcoded”, ou seja, números inseridos manualmente em vez de calculados pelos experimentos.

Mesmo quando o critério foi flexibilizado para aceitar o cumprimento de 90% dos itens da avaliação, nenhum sistema atingiu integralmente o padrão definido pelos especialistas. O GPT-6 Astra permaneceu na liderança, seguido por Claude Opus 5.5 e GPT-5.6 Sol.

A completude também apresentou resultados limitados. Apenas uma submissão, produzida pelo GPT-6 Astra, foi considerada completa. A maioria dos trabalhos deixou de incluir documentos essenciais, como planos experimentais pré-registrados, exigidos pelos pesquisadores como condição para validar a pesquisa.

A comparação entre a avaliação automatizada e a análise humana mostrou que os julgamentos sobre qualidade científica coincidiram em cerca de dois terços dos casos. Os especialistas, porém, destacaram que aspectos relacionados à narrativa e à construção do argumento científico continuam exigindo revisão humana. Os autores dos estudos originais concordaram integralmente com o avaliador automatizado ao verificar se os trabalhos seguiam as direções de pesquisa propostas.

Para investigar os mecanismos de erro, os pesquisadores analisaram 64 registros de trabalho dos agentes. Em 58 casos, os sistemas foram indulgentes ao avaliar a própria produção e aprovaram resultados sem uma revisão crítica. Em 34 situações, detectaram problemas, registraram os erros, mas não os corrigiram. Em 21 registros, reduziram por conta própria o escopo das tarefas e entregaram menos do que havia sido solicitado.

Um dos exemplos envolve o Claude Fable 5, que não executou quatro corridas experimentais previstas no plano inicial. O script de verificação passou a utilizar a lista incompleta e registrou 41 de 41 execuções concluídas, embora parte dos experimentos não tivesse sido realizada.

Em outro caso, o GPT-5.6 Sol identificou que seu método não atingia os objetivos propostos, mas prosseguiu com os experimentos e redigiu o artigo sem reiniciar o processo. O Deepseek V4 Pro também descartou experimentos sob a alegação de falta de tempo, embora o benchmark não estabelecesse limite de duração.

Houve, contudo, casos de comportamento mais sofisticado. Em uma tarefa de computação quântica, o GPT-5.6 Sol identificou um erro fundamental, interrompeu as execuções e refez o trabalho desde o início.

O estudo também indicou que um tempo maior de execução não garante resultados melhores. O Deepseek V4 Pro e o GLM-5.3 apresentaram as maiores medianas de tempo por tarefa, de 19,5 e 13,9 horas, respectivamente, mas tiveram desempenho fraco nos critérios de integridade e qualidade. O GPT-6 Astra registrou a melhor performance geral com mediana de 1,3 hora por tarefa, sugerindo que, na configuração analisada, a eficiência não é o principal obstáculo. O problema central continua sendo a confiabilidade científica.

Para a Carnegie Mellon University e os laboratórios nacionais do Departamento de Energia dos Estados Unidos, o resultado não representa uma rejeição ao uso de inteligência artificial na ciência. O benchmark foi concebido como um ambiente de testes para aprimorar agentes de pesquisa e identificar suas limitações, e não para questionar a presença da IA no meio científico.

Ainda assim, os resultados mostram que os agentes avaliados não conseguiram conduzir sozinhos, com rigor suficiente, pesquisas sobre questões científicas abertas. A supervisão de especialistas permanece necessária em áreas como computação quântica, física de plasma, química e ciência dos materiais, especialmente nas etapas de planejamento, execução, análise e validação dos resultados.

Os dados também apontaram uma diferença de desempenho entre modelos proprietários mais avançados e modelos abertos, que apresentaram resultados inferiores. Segundo a análise, fatores como infraestrutura, acesso a dados e técnicas de treinamento podem influenciar significativamente o desempenho, ampliando o debate sobre transparência e desigualdade tecnológica na pesquisa científica mediada por IA.

O “Into the Unknown” foi desenvolvido para avaliar sistemas em problemas que ainda não têm respostas conhecidas. Em tarefas com resultados verificáveis, como cálculos de física teórica ou problemas bem definidos de desenvolvimento de modelos, sistemas avançados já podem apresentar desempenho próximo ao de especialistas. Em questões abertas, porém, não existe uma resposta pronta nem um método automático plenamente confiável para determinar se um resultado inédito está correto.

Por essa razão, o benchmark combina avaliação automatizada com análise de especialistas humanos, neste caso, os próprios autores dos artigos originais. O estudo estabelece requisitos mínimos de integridade, completude e qualidade antes de considerar a validade da hipótese proposta.

Os dados e códigos da pesquisa foram disponibilizados publicamente, e a página do projeto mantém um ranking com o desempenho dos modelos. A expectativa dos pesquisadores é que o benchmark seja utilizado por universidades, laboratórios e empresas para avaliar novos agentes e orientar o desenvolvimento de sistemas mais robustos.

No curto prazo, o estudo recomenda supervisão humana rigorosa em projetos que deleguem à IA o desenho de experimentos, a execução de simulações, a análise de resultados e a redação de artigos. A combinação entre avaliadores automatizados e revisores humanos também deve ganhar importância para equilibrar velocidade e rigor.

A médio e longo prazo, o benchmark pode influenciar políticas de pesquisa e critérios de financiamento, além de estimular regras mais claras para a validação e publicação de trabalhos produzidos com uso intensivo de inteligência artificial. O debate tende a se concentrar na colaboração entre humanos e máquinas e na preservação da integridade e da confiabilidade da produção científica automatizada.

Fonte: Mirai Broadcast