Nasdaq reage após perder US$ 2,5 trilhões, mas temor sobre regras para IA mantém mercados sob pressão

A Nasdaq subiu 1,8% nesta sexta-feira, em uma recuperação parcial após despencar 5,5% na véspera e perder cerca de US$ 2,5 trilhões em valor de mercado. A alta ocorre em meio às preocupações dos investidores com a possibilidade de uma regulação mais rígida para a inteligência artificial após a vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos.

As ações de empresas ligadas à inteligência artificial lideraram a recuperação do índice, que havia sido pressionado por incertezas sobre o impacto de novas regras no setor e sobre o fluxo de investimentos. O movimento de queda também se espalhou pela Ásia e pela Europa. As bolsas do Japão e da Coreia do Sul encerraram a semana com perdas próximas de 6%, enquanto os principais índices europeus também recuaram.

A queda de 5,5% na Nasdaq refletiu a avaliação de que um Congresso americano sob controle democrata poderá ampliar a supervisão sobre a inteligência artificial, elevando custos, atrasando projetos e reduzindo a rentabilidade esperada de investimentos já realizados.

Nesta semana, o Partido Democrata conquistou maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, abrindo espaço para o avanço de propostas relacionadas à supervisão de algoritmos, ao uso de dados e aos impactos ambiental e energético da infraestrutura tecnológica. Para o mercado, a mudança representa aumento do risco regulatório em um segmento que vinha crescendo rapidamente, impulsionado por projeções de lucros elevados e por restrições legais consideradas limitadas.

A reação dos investidores foi imediata. Gestores reduziram a exposição a ações ligadas à inteligência artificial e à tecnologia em geral e buscaram ativos considerados mais defensivos até que haja maior clareza sobre o desenho das novas regras. A onda de vendas atingiu especialmente empresas de software, chips e computação em nuvem, que têm peso relevante na composição da Nasdaq.

A volatilidade desta semana indica uma mudança no comportamento dos investidores, que passaram de um cenário de otimismo praticamente automático em relação à inteligência artificial para uma postura mais cautelosa. A principal preocupação é que novas exigências reduzam as margens de lucro e desacelerem a expansão de serviços baseados em IA em um momento de investimentos elevados em centros de dados e infraestrutura.

Analistas apontam três principais áreas de preocupação: possíveis limites ao uso de dados e à automação de decisões sensíveis; exigências de maior transparência nos algoritmos, com custos regulatórios adicionais; e eventuais restrições ambientais e energéticas para centros de dados. Essas medidas podem ampliar o prazo de retorno dos investimentos, exigir alterações nos modelos de negócio e provocar uma reavaliação dos preços das ações.

Apesar da recuperação desta sexta-feira, profissionais do mercado consideram o movimento um alívio técnico após a forte realização de lucros da véspera, e não necessariamente um sinal de que as incertezas foram superadas. A avaliação predominante é que a volatilidade deverá continuar enquanto não houver sinais concretos sobre o formato das regras e o grau de restrição que elas poderão impor.

O Texas, um dos principais polos de centros de dados dos Estados Unidos, está entre os focos das discussões. A democrata Gina Hinojosa, eleita para governar o estado, defende a suspensão temporária de novas construções de centros de dados até que sejam estabelecidas regras mais claras para o setor.

O debate envolve o elevado consumo de água para resfriar os equipamentos, a pressão sobre a demanda de eletricidade e os possíveis efeitos nas contas de energia dos moradores. A proposta de Hinojosa preocupa empresas que dependem da rápida expansão da infraestrutura para treinar modelos de inteligência artificial e oferecer serviços de computação em nuvem em larga escala.

Investidores veem o Texas como um possível laboratório para medidas que poderiam ser adotadas em outras regiões dos Estados Unidos. Caso a suspensão de novos projetos avance e seja replicada em estados com características semelhantes, a expansão física necessária para sustentar o crescimento da IA poderá enfrentar limitações, afetando as projeções de receita das empresas mais expostas ao setor.

Diante da pressão sobre as companhias de tecnologia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu a inteligência artificial e criticou a possibilidade de restrições mais rígidas. Em uma mensagem pública, ele afirmou considerar a tecnologia fundamental para a competitividade do país. “Apenas uma liderança insensata diria ‘não’ às riquezas que ela proporciona”, escreveu.

A declaração coloca a Casa Branca em posição de divergência com parte da agenda regulatória defendida pelos democratas e intensifica o embate político em torno do tema. A divisão entre o Executivo e o Congresso pode alimentar novas rodadas de volatilidade, à medida que os investidores tentam antecipar quais propostas avançarão e quais poderão ser bloqueadas.

Nos últimos anos, a inteligência artificial se tornou um dos principais motores de valorização das bolsas americanas, atraindo trilhões de dólares para empresas de chips, computação em nuvem, software e plataformas baseadas no uso intensivo de dados. Esse avanço ocorreu, em grande parte, em um ambiente regulatório considerado brando nos Estados Unidos em comparação com outras regiões.

Com a mudança no equilíbrio político após as eleições de meio de mandato, ganhou força a defesa de limites mais claros para o uso da tecnologia, tanto em relação à proteção de dados e aos direitos civis quanto ao consumo de recursos naturais e energia. O desafio será transformar essa agenda em leis e normas sem comprometer um dos setores mais dinâmicos da economia americana.

Enquanto o novo marco regulatório não estiver definido, analistas avaliam que os investidores deverão alternar movimentos de realização de lucros e recuperações parciais, reagindo às sinalizações vindas de Washington e de estados importantes para o setor, como o Texas.

Fonte: Miraí Broadcast